Minha Mãe

 

Minha mãe (também) é uma peça

Toda vez que eu vinha pra Fabri para vê-la, ela falava, com uma certa pontinha de inveja, de alguém que tinha ido ao Naque, comer peixe no Daniel.

Aquele parecia ser o lugar mais chique da região e ela, coitada, nunca tinha ido lá.

- Eu nunca fui! Ninguém nunca me levô.

Então, num dia de outubro de 2020, logo depois que ela fez 82 aninhos, eu passei a semana arrumando o carrinho dela, trocando umas peças velhas e colocando pneus novos. Porque o carrinho realmente precisava. E mesmo, assim, sob os protestos velados dela:

- Ocê também, fica pegando meu xadrezinho (o cartão de crédito) e lépo, lépo, lépo... fica só gastano!!

- Uai mãe, este carrinho precisa estar bom e seguro pra andar, pra nós passear, uai.

E chegou naquela 5a-feira e eu disse que na 6a-feira iríamos pra Virginópolis, ver a tia Odila.

Olhinhos dela brilharam, mas, como "faz parte do meu show", ela protestou:

- Tô quereno ir não, bobo. Quero só ficar quitinha no meu canto.

Mas na 5a-feira à noite a malinha já tava devidamente arrumada e já dava pra ver que ela tava mais ispiltinha, porque ia viajar com o fimasvéio!

Manhã de 6a-feira pegamos a estrada. Aboletada orgulhosamente no "meu carrim véio, mas tá bão pra daná", conversava animadamente, relembrando causos e praticando o esporte preferido dela: faláduzôto!!

Passamos de Belo Oriente e ela nem notou. E chegamos no Naque:

- Uai, oncotô??

- No Naque. Vamos rever os lugares em que a gente morou.

- Nóóó minino. Néquinão! Vai ter que voltar istudo, até no Beloriente de novo!!!

E fizemos um tour na paradisíaca cidade do Naque, revendo o rio, o nosso antigo bar, a nossa antiga casa, o local da antiga estação. E subimos lá pras ruas de cima. E entrei numa rua que antigamente era bem conhecida.

- Uai, minino, oncevai? Isso aqui é o puteiro do Naque. Cê vai entrar aqui?

- Eita mãe. Isso era no passado. Agora é uma rua normal e a outra rua virou contramão.

E fomos na igreja ("nóóó tá diritim, já rezei muito aqui"). E passamos perto do antigo clube de sapé ("dancei aqui mais seu pai") e fomos finalmente para o Bar do Daniel, o cara fera nos peixes, bem na beira do rio Santantônio.

- Uai minino, não vamos pra Virginópolis não?

- Vamo!! Mas vamo comer peixe antes.

- Nóóó... aqui é caro!!!, e passava o dedinho indicador no polegar, levantando o braço nas alturas.

Acostumada com self-service, foi uma dificuldade pra ela poder escolher um bom prato

à-la-carte. Dedinho dela deslizava no menu, não na coluna dos pratos, mas na coluna dos preços.

- Ei mãe, preocupa não, eu vou pagar este nosso almoço.

- Cê tá com dinheiro, hein? Pricisa não, eu também tenho. Trabalhei muito, guardei...

- É, mas agora eu tou pagando, uai.

Custou pra escolher um bom prato com um peixe frito, mas reclamou que não tinha batata frita. Fui lá e pesei 100 g de batata frita pra ela. Se trouxesse meio quilo, ela comeria meio quilo ("pode sobrar não") e passaria mal na viagem.

Escolhi um bom lugar pra ela, de costas para o corredor, mas com uma bela vista do rio passando ali do lado. Meia hora depois ela tava com tontura, por causa do movimento do rio. 

- Poxa mãe, desculpa, não pensei nisto. Vem, troca de lugar comigo.

- Aaah, agora sim. Não quero ver rio não. Gosto é de ver gente.

E os olhinhos inquietos não paravam de "perseguir"  todo mundo que entrava. De alto a baixo. Uma senhora sentada na mesa ao lado foi devidamente analisada, desde o penteado e os brincos, até os sapatos. Mãe olhava os sapatos da mulher, olhava pros sapatos dela, olhava pros da dona de novo. Virava o pezinho pra olhar o sapato dela de lado  e resmungou alguma coisa. Não ouvi. Mas presumi que devia ser algo assim "o dela é bonito e o meu é feio, aiaiai".

Comeu devagarinho como sempre, com olhos fixos no meu prato que tinha um grande peixe assado ("eu queria ter pedido esse aí, mas é caaaaro.  Parece mais gostoso que o meu. Xô isprimentá.") 

Na boca do caixa, espichou o pescoço pra ver quanto tinha ficado o almoço. Falou no alto preço por umas boas semanas depois. E da volta grande que eu tinha feito pra chegar em Virginópolis, passando pelo Naque.

Mas viajou bem tranquila pelas estradas nas montanhas que ela bem conhecia. Cochilou o tempo todo e não sei se sonhou com tempos de outrora. Apesar das reclamações, tava curtindo muito a viagem.

Uma peça, essa nossa mãe.

Uma peça onde as cortinas não fecham.
Produziu tantas cenas com tanta intensidade, que marcou e continua marcando as vidas de muita gente.





Minha Mãe e Minha Tia São Duas Peças

O velho Uno Mille da minha Mãe urrava pelas serras e curvas entre Açucena e Virginópolis, cidadezinhas de MG. Minha Mãe felizmente dormia tranquila no banco ao lado e me deixava com mais tempo para apreciar as delícias daquela paisagem que eu já tanto conhecia. já havia passado por esta estradinha até a pé, numa caminhadinha de 40 km nos tempos em que não havia ainda o asfalto. Mas não cansava de admirar aquilo tudo. 

Montanhas enormes, riachos, cascatas, paisagens bucólicas com vaquinhas e cavalinhos pastando.

Aqui e ali a mata virgem desaparecia e dava lugar aos eucaliptos perfilados em linhas, como um bloco de soldados verdes marchando montanha acima.

Em algumas serras, o Uno urrava que nem cavalo chucro pra subir. Era preciso parar e engatar a 1a marcha. Aí ele subia reclamando. Mas subia. E depois descia feliz, como se brincasse num tobogã de muitas curvas.

Minha Mãe finalmente acordou na chegada em Virginópolis. Ela estava visivelmente eufórica, pois havia tempos que não via a irmã dela, a minha querida tia Odila, quase minha segunda Mãe. A Covid, esta peste, não só dizimou muitas famílias levando entes queridos, como também afastou outras tantas, devido ao necessário isolamento social. Naquele outubro 2020, a pandemia parecia dar uma trégua e, finalmente, as irmãs podiam se encontrar com alguma segurança, ainda protegidas por máscaras e um certo distanciamento.

O reencontro das duas, agora octogenárias, foi tão efusivo que eu tive que filmar e gravar num vídeo pra posteridade. Sou sim, um "colecionador de momentos", e tenho vários vídeozinhos e fotinhas destas pessoas queridas que são nossas matriarcas.

A tia Odila é agora a irmã mais velha da minha Mãe. Mais velha e mais, bem mais, forte e destemida e de um dinamismo contagiante. Andando pelas ruas de Virginópolis ela parece ter "rodinhas nos pés" e é até difícil acompanha-la. Viveu a vida inteira na fazenda e fazia todo tipo de trabalhos que este tipo de vivência exige. A manteiga que ela fazia era das melhores da região. Os doces, huummm... não posso falar deles sem dar um estalo na língua e evocar meu "paladar afetivo".

Foi a tia Odila que veio ajudar a Mãe a descer do carro. Ver as duas juntas era como ver o Rambo e o Bambo. Ou como ver uma serelepe lebre perto de uma tartaruga engessada. Minha Mãe, passou a vida toda em trabalhos "parados", professora e caixa de comércio, e agora aos 82 anos estava em franca fase de "me deixa mais quieta ainda aqui no meu sofá". E ainda estava com uma tipoia no braço direito.

Irmãs, de qualquer faixa etária, são sempre parceiras e adversárias ao mesmo tempo. Ha sempre um clima de "disputa" entre irmãs, ainda mais quando são muitas numa casa só. Imagina uma fazenda com umas 8 meninas crescendo juntas e dá pra ver como era. Agora de novo lado a lado, era perceptível o clima de amizade, companheirismo e também competição entre elas.

- Nossinhora!! Cê tá mais velha, mas tá mais forte que eu, que isso??

- Crendeuspai! Cê é mais nova que eu, mas tá parecendo mais velha, quêisso??

- Poisé, minha fia. Tô quinem véia de 60 anos!!!

Muita conversa entre as duas e eu só observando, as vezes gravando num vídeo, as vezes só ouvindo, e a tia fazendo todo o "relatório"  dos últimos meses em que elas não se viram. Ao chegar na sala da casa, onde minha tia mora sozinha, ela decretou as "regras do lar", me falando:

- Ó, aqui na sala tem estes dois sofás. Este aqui é o meu, onde eu sento pra descansar, deito, cochilo, faço tricô, crochê e fico ouvindo os padres na TV no canal Aparecida. Aquele outro sofá ali vai ser pra sua Mãe, pra ela sentar e descansar e espichar os pés. Já pra você tem esta cadeira aqui.

Eu então olhei pra cadeira, aquela de plástico branco, e pelo menos ela tinha encosto pros braços. Cansadaço de viagem como eu estava, ela até me  pareceu confortável. Sentei ali, saquei meu celular e fiquei quietinho, como o sobrinho obediente que eu sou, diante das regras da matriarca e dona da casa.

Na TV, um padre fazia mais um sermão. já devia ser o terceiro que eu ouvia desde que cheguei, além dos cânticos da Igreja, até bonitos, mas que se repetiam à exaustão, já que a tv ficava sempre ligada e sempre naquele canal, e sempre em alto volume. Na cozinha, as duas conversavam animadamente e meu aparelhinho atrás da minha orelha já não estava dando conta de processar tantos sons. Catei o controle remoto ali no sofá e apertei a tecla "mute". Voltei a sentar, quietinho, absorto no meu celular. Imediatamente apareceu a tia, andando ligeirinha como sempre. Olhou pra tv, olhou pra mim, olhou pra tv de novo. Falou algo em voz baixa e eu ali, só observando no rabo do olho, lendo e escrevendo no meu celular. Ela pegou o controle, apertou a tecla de volume, levando ao máximo e resmungou alguma coisa em voz baixa. Olhei de soslaio pra tv e o gráfico de volume já estava no 99. No cantinho da tela, a palavra "mute"  piscava sem parar, entregando o meu crime. Continuei de cabeça baixa e a tia então desligou a tv e jogou o controle ali no sofá. Ufa! livre.

Meia hora depois a tia pareceu se lembrar de mim e veio de novo pra sala. Trouxe um caderninho onde estavam anotadas todas as 25 ervas que ela tem plantadas lá na vistosa horta do quintal. Tantas!!! Alecrim, hortelã, cidreira, funcho, guaco etc., etc...  E me chamou pra cozinha, pra beber com elas duas o delicioso chá da "erva do dia", que era o funcho. As florezinhas dessa erva super-mega cheirosa e gostosa são conhecidas por erva-doce, usadas pra fazer chazinhos pros bebezinhos. Tomei umas goladas do chá quente, buscando de novo meu paladar afetivo, pois me lembrei que tomava aquilo na casa da minha bisavó Dinha, que usava este chá toda noite antes de dormir. A outra bisavó, a Duninha, era mais radical: dormia só depois de uma copada de cachaça com açúcar.

Feitas as honras e bebido a caneca de chá quente, voltei para o meu "castigo" na cadeira branca e ao meu celular. De cabeça baixa, lendo e escrevendo, fui sentindo aquela moleza típica do "pós-chá" e ouvia o plec, plec dos meus neurônios se desligando, um a um. A cabeça pendeu e acho que comecei a babar, não sei. só sei que quando havia apenas dois neurônios vivos, o Tico e o Teco, tive forças pra me levantar e me arrastar para a cama lá no quarto. Nela desabei, de roupa e tudo, largando na cama ao lado o celular e meu aparelhinho auditivo. Apaguei bonito!

Tico e Teco acordaram uma hora depois, com a luz do quarto sendo acesa. Sem ver e sem ouvir, pressenti as duas, Mãe e tia, ali na porta do quarto, falando de mim.  Fiquei quietinho e comecei a rezar: "Deus meu, não deixe que elas me acordem. Eu sei que pequei e fui dormir sem banho, sem janta e de roupa completa. Mas não deixe que elas me chamem, por favor. Eu prometo, senhor, que amanhã eu subo aquela escadaria da capelinha, com apenas 567 degraus. Subo até de joelhos, mas não deixe que elas me acordem".

Pareceu funcionar, ufa! A luz se apagou, Tico e Teco foram dormir e eu apaguei de novo.

Acordei as 5 da manhã, com aquela chuvinha deliciosa que só Virginópolis tem, aquele cheiro de montanhas que  só Virginópolis tem e fui dar uma voltinha no quintal, ouvindo os passarinhos acordando e vendo as famosas ervas da horta da minha tia. Lancei um olhar fuzilante pro pé de funcho e gravei na memória em letras de ferro: "Funcho nunca mais".

Comi uma rosquinha sem fazer barulho, peguei um pau que tava ali e minha tia tinha dito que eu podia usar como "bengala de caminhada" e saí de mansinho sem fazer barulho pra não acordar nenhuma das duas. A serelepe  da minha tia tinha decretado que queria caminhar comigo. Subir o morro do cruzeiro. Subir as escadarias da capelinha. Aonde eu fosse, ela iria. Afinal, tava mostrando pra minha Mãe o quão saudável ela estava. Aimeudeus!! Eu não queria ser responsável por um eventual colapso do joelho dela, me seguindo em minhas andanças virginopolitanas. E por isto saí de fininho sem ela ver, e fui escalar, pela enésima vez, a Serra do Paraguai, que tem uma altitude de 1000 m. A cidade fica a 800 m de altitude, então era uma subida de apenas 200 m, pensei.

Voltei lá pelas 7 horas, passei de fininho entre as duas em direção ao banho, me troquei e fiquei prontinho pra irmos pra feirinha da cidade. Senti o olhar fuzilante da minha tia em minha direção, com os dois espertos olhinhos dela me fitando e entregando o motivo daquela amargura. O da esquerda parecia dizer "porque você foi caminhar e não me levou, como eu havia pedido??" e o da direita dizia "Te falei que tinha que chegar na feirinha as 7 em ponto pra achar os doces. E já são 7:10". Mea culpa, tia, mea culpa.

Andar pela feirinha de uma cidadezinha de Minas é um espetáculo à parte. Maioria da população mora pelos arredores, em fazendas e sítios, e os feirantes vêm de lá, trazendo suas produções e colheitas fresquinhas. As verduras são maravilhosas, com todas as nuances de verde, e as quitandas parecem ter acabado de sair do forno de barro, estalando de tão tenras. Os doces são de várias cores, texturas, formatos e sabores. E as senhoras e senhores que vendem tudo aquilo são um show de simpatia e muitos "causos".

Minha tia amparava a minha Mãe pelo braço e a "arrastava" de  uma banca pra outra, conversando com as dezenas de pessoas conhecidas. Minha Mãe pareceu se enamorar do tio da barraca de doces e cachaça e não queria sair de la, envolvida pelo papo caloroso. E eu ali, só observando, captando tudo como se estivesse filmando um filme singelo, cheio de cores, personagens e até música no ar, vinda não sei de onde. É sempre assim, quando eu ando pelas ruas de Virginópolis. Ouço música. Ou vinda da minha cabeça ou do alto falante da igreja, chamando os fiéis pra missa. Ou tocando o Angelus, às 18 hs, diariamente.

Por uns dois dias fiquei lá, entre aquelas duas peças.

Peças raras, de muitas histórias e vivências. De muitos frutos e exemplos.

Fiquei ali, como se estivesse sentado num camarote do teatro da vida, envolto nas muitas histórias e causos, imaginando como nossas matriarcas são nossas BASES para que continuemos essa grande aventura chamada VIVER.

Pensava lá com meus botões que nós somos a continuidade das trajetórias destas mulheres fortes, únicas em suas vivências, e que nossos filhos serão a continuidade delas e de nós mesmos.

E orava, naquela oração sem palavras, agradecendo ao bom Deus pela oportunidade de conviver com elas.







Minha Mãe (também) é uma Peça-2

Naque Nanuque

Esse nome, disse o Gúgol,  teria vindo de "Nack-ne-nuck", índios bravios descendentes dos Aimorés.

E esse é o nome oficial de um distrito do município de Açucena-MG. Fica a meio caminho entre Açucena e Naque.

Mas poucas pessoas o chamam assim. Para a maioria, é mesmo o Naquinho, um apelido singelo.

E por obra e graça do destino, da cafubira e dos percevejos, foi pra lá que nos mudamos, por volta dos idos de 1965, quando eu tinha então uns 3 anos de idade.

Naquela casa grande, no Naquinho, um mundo se abriu. Afinal, eram os meus primeiros anos de uma infância ativa e de muitas descobertas. O pé de mexerica logo na porta da cozinha, de imensa copa verde que se enchia de bolinhas amarelas todo outono. Os altos pés de jatobá lá na porta da frente, o imenso pomar com pés de laranja, mexerica, abacate e banana, muita banana. O imenso bananal, um labirinto onde eu brincava e me escondia. A montanha logo ali atras, onde meu pai plantou abacaxi. Os cavalos pra andar. Vaquinhas pra mugir de manhã e encher o curral com aquele cheiro característico de "bosdiboi", que a gente tanto gostava.

E ainda tinha o rio Santantônio, do outro lado, nosso destino turístico nos dias de verão e inverno também.

E tinha ela, a minha Mãe.

Aqueles anos no Naquinho foram os primeiros anos em que eu a ouvia de forma consistente. Foram as primeiras vezes que tive com ela as conversas mais proveitosas, cheias de ensinamentos, causos, broncas, direcionamentos, doutrinação. Foram as tantas vezes em que ouvi dela as vozes de cantorias, sempre canções tristes, os gritos de desespero e dor, as gargalhadas de alegria e as inúmeras conversações.

Meninos e meninas, entendam: sem luz elétrica, sem celular, sem TV, o que havia pra fazer nas noites no Naquinho eram mesmo os longos papos ao redor da mesa ou do fogão quentinho, quando fazia frio. E aquilo ia atééé altas horas, tipo assim, lá pelas 8 da noite. No máximo, 9. Afinal, o dia na roça começa cedinho. 5 da matina ja tem um galo cantando lá fora, fazendo todo mundo acordar e ir cuidar da vida.

E foi numa noite daquelas que ela, a minha Mãe, me descortinou um mundo novo. Literalmente. Me levou lá pra sala, abriu uma cortininha de pano que cobria uma pequena estante azul, abarrotada de.... livros!

Pensei aqui comigo: depois de ter me dado a vida e me ter amamentado no peito por longos 2 anos, aquele foi o 3o melhor presente que ela me deu, me apresentar aos livros.

Naquela pequena estante estavam os livros que ela usava no ofício de professora. Ela e outras colegas que se hospedavam em nossa casa, inclusive a minha querida Dona Vivina Maria de Lima, minha primeira professora. E ali estava um mundo inteiro a ser descoberto.

Nao me lembro exatamente quando comecei a juntar letrinhas pra fazer silabas; silabas para fazer palavras; palavras, frases; frases, textos; e textos, aventuras mentais. Mas foi bem por aquela época, com uns 5 pra 6 anos, e, com certeza, a dona Branca Alves de Lima teve muito a ver com isto, com o livrinho dela, o famoso Caminho Suave.

Depois do Caminho Suave, veio o livro As Mais Belas Histórias. E isso nao parou mais.

Fui devorando tudo que tinha naquela estante, fossem livros ou apostilas. E aí passei a devorar rótulos de latas e caixas de alimentos. E o que caísse na minha frente que contivesse palavras, eu lia. 

Lembro-me de certa feita em que eu tava lendo o rotulo de uma lata, quando me deparei com uma palavra desconhecida. Ainda nao tinham me apresentado ao dicionário e então, eu sempre recorria a ela, minha Mãe.

- Mãe, o que é glúten?

Agora que eu também sou professor, sei o quanto nos é custoso responder um "nao sei". Os olhinhos dela mexeram de um lado a outro, fitaram o teto, viraram pra dentro, em direcao ao cérebro em busca da resposta. Com ar professoral, ela então respondeu:

- Glúten? Ah, sim, Glúten. Ah, é uma coisa de comer.

Nossa, quanta sabedoria na minha Mãe. Naquela época, ela sabia de tudo e me ensinava de tudo, então... Glúten é uma coisa de comer. Huuumm... interessante. Mal sabia eu que 50 anos depois o danado do glúten iria me fazer muito mal e estufar a minha barriguinha.


Combinadas

As Escolas Combinadas de Naque Nanuque, apesar do nome no plural, eram apenas o nome do grupo escolar local lá do Naquinho. Eu nunca soube quem combinou o que. Só sabia que eram combinadas. Ponto. Por concurso ou por QI, a minha Mãe foi ser professora lá naquela escola. Ela tinha estudado apenas até o 4o ano primário, mas dominava bem os temas. E depois ainda fez alguns cursinhos lá em Gov. Valadares. Destarte, era, com certeza, uma das melhores professoras do local.  E ainda foi guindada ao cargo de Diretora daquele educandário. Olha só, Diretora!! A gestora local. Gente chick!

Tendo me apresentado aos livros e tendo feito com que a Dona Branca me ensinasse a ler, minha Mãe resolveu me matricular no 1o ano daquela escola, apesar de eu ter apenas 6 aninhos. Naquela época, a meninada de 6 anos fazia o pré-primário. Onde houvesse, claro. lá nao tinha. Então, só para "eu ir passar o tempo" ela me matriculou. Convencer a Diretora da escola a me deixar entrar lá nao foi difícil. A diretora era ela. E lá ia eu, todo feliz, pra aula, todo dia de tarde. Aquilo para mim era um passatempo gostoso. Ler e aprender era uma brincadeira tão legal quanto fazer fazendinhas com pedaços de gravetos e criar boizinhos e vaquinhas com as frutas que abundavam pelo chão do quintal.

E estrada entre nossa casa e a escola era de terra, "estradichão", como dizemos em Minas. Uma poeira danada no tempo seco, e um lamaçal danado no tempo chuvoso. Nao sei bem como minha Mãe fazia pra chegar "arrumadinha" lá na escola, mas sempre dava um jeito. Por vezes, até mesmo levar a sandália bonita numa sacola na mao, enquanto os pés descalços amassavam o barro.

Eu fazia o mesmo, zigzagueando pelas poças d'água e barro, pra chegar limpinho na sala de aula. E ainda tinha uma bolsa de levar cadernos, chamada de pastinha, que tava meio rasgada na lateral e os lápis insistiam em pular pelo buraco pra cair na lama.

Mas a gente tava lá, todo dia, marcando ponto e aprendendo e ensinando.

"Toma a pastinha, e seu chapéu. Queu ja me vou, ja me vou  embora". Era hora de voltar pra casa e refazer aquele mesmo percurso.

Me lembro dum mês de junho, em que minha Mãe estava coordenando as festas juninas. Na sala, com ar autoritário fazia o discurso de "marketing" das festas, ensinando a meninada a cantar "pra dançar quadrilha paga só 2 conto, paga só 2 conto, paga só 2 contooooo".

Pois era preciso pagar 2 contos ( 2 cruzeiros ) pra ajudar a financiar a festinha, numa escola sem recursos. 

Ae um moleque lá do fundão perguntou:

- Ei dona Ilca, qual roupa a gente veste pra vir dançar quadrilha, hein?!?!

Gestora tem que ter resposta pra tudo. Rapidamente os olhinhos dela passaram pela sala, deram uma olhada nas meninas de trancinhas ou maria-chiquinhas, vestindo vestidinhos de chita, aqueles feitos em casa mesmo pelas mamães; notaram os remendos nas camisas dos meninos, alguns com retalho diferente da estampa da camisa; e viram os chinelinhos de dedo e algumas botininhas de roça que os meninos calçavam. Eles só nao estavam de Chapéu porque era proibido dentro da sala. Alguns chapéus estavam pendurados nos ganchos próprios pra isto.

E, rapidamente, com firmeza ela respondeu:

- Nao precisa de roupa especial pra dançar quadrilha nao, Zé! Usem as mesmas roupas que vocês usam pra vir pra escola, que vocês usam em casa. Essas mesmas!

Ufa! Mais um dilema contornado.

 

Santantônio

O Rio Santo Antônio passava ali do lado. Calmo e tranquilo, corria pelo leito de areia indo de encontro ao Rio Doce, lá pelas bandas do leste, no Naque. E aquele danado daquele rio, de aguas marrons, fazia a nossa festa, era o nosso ponto turístico local. Era difícil convencer a minha Mãe a nos levar la, para uns mergulhos ou umas caminhadas nas praias que se formavam nele, na época da seca. Mas a gente sempre conseguia dar um jeitinho.

No momento em que escrevo esta crônica, minha Mãe está numa UTI, aguardando uma cirurgia pra colocar um marcapasso no coração, devido a uma bradicardia. E eu penso aqui comigo o quanto eu contribuí para este coraçãozinho (na verdade, um coraçãozão, pois ele cresceu) vir a falhar assim, ja aos 82 anos. E várias destas contribuições foram lá, naquele danado de rio, onde minha Mãe sempre esbravejava: "quer me matar de coração, minino?!?!". Pois agora sei que nao era fácil nem tranquilo, levar uma meninada para aquele rio, que por vezes tinha uma correnteza forte e o fundo era movediço, devido à areia que mudava a toda hora de lugar. Minha Mãe levava nao só os filhos, mas também os sobrinhos que por vezes iam passar férias lá em casa. E ela ficava a todo momento, contando um a um, pra ver se o rio nao tinha engolido ninguém. Aquele mundão de água, aquelas praias enormes que iam até o meio do rio... Aquilo era um paraíso pra nós e um sufoco pra ela. 

Quando me lembro das minhas molecagens, tenho dó dela. Depois de ter aprontado uma tarde inteira, na hora de ir embora eu fazia de conta que escorregava nas margens do rio, caía no meio do barro e dizia que tinha que voltar para limpar.

So ouvia os gritos dela, ja longe: "Rooooooooooooooner!!! sai do rio, minino!!! Óia que vai ter chinelada quando chegar em casa".

Tinha nada. No percurso entre o rio e a casa, ela ia conversando animadamente e até esquecia da tal chinelada. Ufa!

Bicho de Pé

Todo mineiro que se preze, mineiro raiz, ja pegou "bichdipé". Ou vai pegar um dia.

Essa coisa é  um bichinho pequetito, com menos de 1mm de diâmetro, e que anda por ali perto dos chiqueiros dos porcos ou outros lugares da fazenda ou sítio. Adora pés descalços e pensa que a unha da gente é teto. Quase sempre vem fazer casinha "dibadaunha"  da gente, o danado. E dá aquela coceira persistente e gostosa. Você pega a coisa e fica hooooras, talvez dias, coçando o lugar.

Quando o danado, que é um parasita, resolve fazer morada ali, e ninguém tira e mata ele, vai crescendo, crescendo... e vira uma bola com quase 5 mm de diâmetro, amarelada. Que a minha Mãe chamava de "batata".

Pois bem. Andando descalço pelo sítio lá do Naquinho, com montes de porcos e outras criações, eu quase sempre tava com um bichinho de estimação enfiado "dibadaunha". E, como tirar aquilo doía pra caramba, eu costumava esconder o bicho e deixar que ele fosse crescendo.

Os meus "bichinhos de estimação"  cresciam só até o momento que a minha Mãe descobria eles. Assim que ela via, dava um grito exultante; "Arrááá... um bicho. Vamos tirar!!!". Putz!! lá vinha a tortura. A Mãe usava sempre uma agulha de costura, esterilizada em álcool, e manejava aquela coisa com destreza, costureira que era. Fazia daquilo quase uma "lança" de um guerreiro medieval, lutando contra um monstro chamado bicho de pé. Cutucava, abria a pele, enfiava a agulha lá no fundo, fisgava o bichinho pela "bundinha"  dele e arrancava. E aí tinha sempre outro grito, o de triunfo: "Aaaah, eis a batata!!" dizia ela com o bichinho espetado na ponta da lança, digo, da agulha. E colocava no fogo da lamparina, pra ouvir o trec-trec do estouro dos ovinhos do bicho.   

Lembrei disso quando citei que eu escapava das chineladas. Mas nao escapei da mão dela. Justamente num dia que ela tirando mais um bicho do meu pé, e eu tava lá, choramingando e ela nao parava de repetir "calaboca! calaboca, minino!!"  Devia ser um dia especialmente  estressante, e depois do undécimo calaboca ela veio com a mao na minha boca e lascou um tapa. Calei,claro! Nao queria outro.

E ae fiquei uns dias com a boca inchada, os lábios fazendo um bico que nem as meninas fazem hoje nas fotos tipo selfie. E a Mãe lá, com visível remorso por ter desferido o tapa, mas muito triunfante por me fazer ficar quieto pra ela "pescar"  o bicho inteirinho, como ela gostava.

As vezes eu conseguia escapar dela. Quando me mudei pra Açucena, era mais facil esconder os bichos da agulha dela e aquele trem  ficava ali, crescendo. Certa feita, estava eu com um baita bicho de pé debaixo da unha, uma batata mesmo, e meu querido tio Vani chegou lá na casa da minha avó pra visitar a minha tia. Ele então veio me cumprimentar como sempre fazia, o lustroso sapato dele pisou no meu dedo. E...ploft!!! A batata do bicho saltou longe, deixando no lugar aquele buraco típico, que depois ficava preto formando o que minha Mãe chamava de "bichoca". Esse ela nao teve o prazer de pegar pela bundinha, espetado na lança dela. 

E voltei ao Naquinho só com aquela coisa preta debaixo da unha. Ela então passava aquele antigo Mertiolate, aquela praga que vinha com uma pazinha de plástico, e o trem sarava rapidinho.

Sobrevoei o Naquinho recentemente, através do Gugol Ért, e procurei nossa antiga casa. Não estava mais lá. No lugar, uma nova construção do que parece ser o posto médico local. Mas reconheci os arredores, os morros, as estradas, o rio... e fiquei pensando que aquele lugar, aquela casa, sempre estarão em minhas memorias, como o local onde os alicerces do meu SER foram construídos. Sob os olhares atentos e cuidadosos da minha venerada Mãe.

(nas fotos, minha Mãe e eu, nos anos 60, os anos do Naquinho)    

              


















Comentários

  1. Assim como vivemos nossas histórias nas cidadezinhas de infância, a cidadezinha vive em nós e se perpetua enquanto existimos. O progresso vai demolir a velha casa, arrancar a velha árvore, preencher o horizonte com mezaninos e antenas. Que o faça. Mas a criança que fomos continua vivendo no seu cantinho, lá no mundo de dentro, curiosa e esperta. Agora que conhecemos o cantinho do Roner, já podemos todos ser amigos de infância dele.

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