Jubilosos
"Salve Açucena, terra querida. Jubilosos te dedicamos um hino...."
Aos 7 anos de idade, em 1969, eu nem fazia ideia do que seria "jubilosos". E não tinha Google prá pesquisar. Tinha um dicionário em algum lugar, mas eu nem queria saber o significado.
Estava ali, numa das salas do Grupo Escolar Antônio Alticiano, cantando em alto e bom som o Hino a Açucena. Estava junto com a turma da 2a série, da professora Dona Zélia.
Cantava com orgulho, com força, com vontade e com alegria. Afinal, eu estava agora na "cidade grande", depois de ter passado meus anos anteriores no arraial do Naquinho. Lá, estudava nas Escolas Combinadas de Naque Nanuque. Nunca soube quem combinou o quê. Só sei que eram Combinadas. E também nunca entendi porque uma escola para os 4 anos do primário tinha apenas 2 salas. Que eram ocupadas pelo 1o e 2o ano. O 3o ano se aboletava no pátio aberto dos lados, onde entrava água quando chovia. E o 4o ano aproveitava o salão da Igreja ao lado. Mas fiz lá o 1o ano, com a minha inesquecível 1a professora, a Dona Vivina Maria de Lima. Que morava na minha casa, o que me ajudava muito a dar uma espiadinha nas provas do dia seguinte.
"Recebe o afeto, que sincero parte, de cada peito de um filho teeeeeuuuu..."
A cantoria seguia alegre. Eu já me sentia um filho da cidade de Açucena, mesmo não tendo nascido lá. Mas agora estava lá, entre aquela meninada alegre e alguns nomes que se destacavam.
Lá no fundo, ouvia-se a batucada do Lott, sempre tocando um "bumbo invisível" na carteira de madeira. O cara era tão batucador que na hora da bandinha a professora queria que ele tocasse o meu tamborzinho amarelo de fitas vermelhas que ganhei no natal. O quê?? Ah, professora, por favor, não, né? O Lott toca meu tamborzinho e eu tenho que fazer um reco-reco de bambu? Manda o Lott fazer, uai!!!
E tinha o Zezé, pequenininho e mirrado, mas muito esperto e inteligente. Um olho dele não funcionava direito, e por isto a gente chamava ele de "Ceguim". Ele encarava de boa. Era so um apelido. Nunca vi o Zezé constrangido, a não ser no dia do amigo-oculto da 4a série. Ele trouxe um "biscoidigoma" (um grande biscoitão de polvilho) de presente prá Júlia e ela não gostou muito. Jogou no lixo ali mesmo deixando o Zezé meio sem graça, mas feliz pelo corte de pano que a Dona Marinês deu pra ele. Aquilo daria uma bela camisa prá ir prá missa aos domingos.
O Zezé era um dos meninos "da roça". Aqueles que vinham caminhando por loooongas estradinhas de terra, até chegar na escola. E por vezes, ainda "tomavam bandeirinha", coitados, e tinham que voltar prá casa sem aula. A bandeirinha era colocada no portão da escola e parecia nos gritar lá de cima: "Ei, você chegou atrasado e não pode mais entrar". Os meninos da cidade tomavam bandeirinha amarela depois de 10 minutos de atraso. Os da roça, vermelha, depois de 20 minutos.
E tinha o Bel, o gênio. Não era meu colega de sala, mas era famoso na escola inteira. Na hora do recreio, toda a turma fazendo algazarra pelo pátio, e lá estava ele. Era filho da D. Zélia e era aluno do 4o ano, eu acho. Ele ficava lá quietinho, lendo um livro, sentadinho na sombra e nem suava como todos nós, esbaforidos. E eu nem sabia que tinha uma biblioteca no Antônio Alticiano. E, se soubesse, não iria lá na hora do recreio não. Naqueles momentos, eu não queria ler as aventuras dos outros. Estava muito ocupado vivendo as minhas próprias aventuras.
O Bel era tão fera que uns anos mais tarde fomos convidados a assisti-lo respondendo umas perguntas no programa Seu Saber É Pra Valer, da TV Alterosa.
Na minha sala, tava o irmão dele, o Nem da dona Zélia. Ou Nem do sôDudu. Tinha que ser assim, diferenciado, porque na cidade tinha outros Nems. O Nem do Duta. O Nem do ZéBarbosa... Mas o Nem do sôDudu era especial prá mim, porque era meu colega e morava numa casa grande lá embaixo, na esquina da rua São Sebastião e rua do matadouro. Aquela casa tinha um quintalzão cheio de surpresas. Até uma caixa d'água que simulava uma mini-piscina tinha lá. E às vezes eu era convidado a ir lá nadar. Embora eu morresse de vergonha da Bena e da Rane, as irmãs do Nem.
E na sala ainda tinha as meninas: a Maria Lúcia, a Júlia, a Maria Honória... e um tantão de outros nomes que a memória apagou, mas que compuseram aqueles momentos de aventuras e descobertas em Açucena.
A Márcia e a Soraia não estavam em minha sala. Acho que nem na minha escola, nem me lembro. Para mim, eram como "princesas", junto com a Beca, vivendo num castelo, que era o casarão da Farmácia do sô Pico.
"...as tuas brisas puras, refrigerantes, acalmam o viajor ao teu seio vir."
A gente dava uma risadinha diante da palavra "seio"; pensava num Grapette ou falar "refrigerantes"; e não entendia bem o que era um "viajor". Viajante! Visitante!, dizia a professora. Aaah, bem! Então porque o poeta dizia "viajor"? Só prá bagunçar a cabecinha da meninada? Seja como for, a gente amava e continuava a amar ainda mais a nossa cidadezinha ao cantar aquele hino. Para isto eram os hinos, as cantorias. Aumentavam e realçavam nossos sentimentos. Pela cidade e "pela pátria, pela pátria, pelo Brasil, forte e unido...". A gente nem sequer sabia que "lá fora", longe das "montanhas sempre verdejantes" pipocava uma ditadura feroz. Dos generais, só nos chegavam as músicas feitas para realçar o patriotismo e o amor em nosso "coração verde-amarelo-branco-azul-anil".
Dona Zélia, Dona Wanda e Dona Marinês foram minhas "guias" naqueles primeiros e significantes anos em Açucena, abrilhantando e solidificando uma infância feliz, procurando com "espontânea arte dar-te um brilho como sendo teu". Ao final da 4a série, a cantoria ficou mais triste: "Deixai minh'alma desferir o canto, deixai meu pranto soluçar no verso. Mestres amigos, casa estremecida, Deus nos convida sob o céu diverso..."
As professoras choravam a cantar aquela música e eu não entendia porquê. Afinal, estariam "livres" da gente, uai! E nós estávamos partindo contentes, para as aulas noturnas no Ginásio, a escola "dusgrande", como a gente chamava os meninos maiores.
E partíamos para o mundo, já com os alicerces prontos para a vida.
Jubilosos!!!
Roner Dawson
Campinas, Setembro 2020


Parece “meu pé de laranja lima”, mas é só seu pé de Açucena... muito bom! E eu entendo o porquê das professoras chorarem hehehehe
ResponderExcluirMeu Pé de Laranja Lima tinha tambem.. e tinha pé de manga, de goiaba, de araçá, de ingá e de jambo... que ainda virarão personagens de futuras crônicas.
ExcluirAh, as professoras chorosas. Talvez fossem lágrimas de felicidade, hehehe
😁
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