Os Que Partiram


Os que partiram, não se foram de vez. 
Enquanto relembrarmos deles, continuarão aqui, entre nós. 

Foi no Dia de Finados de 2013 que comecei a relembrar de vários personagens que fizeram parte da minha infância; que me influenciaram de alguma maneira e que já haviam partido para o outro plano. E, pensando neles e nelas, notei o quanto eles e elas ainda estavam comigo. Conosco. Com todos aqueles com quem conviveram. 
E comecei a escrever. 
Aqui, nesta página, alguns destes escritos. 
1- Tia Afra
2- Jadir
3- As 3 Nanás
4- ...

Tia Afra


1969, 70, 71, 72... Açucena, MG
Eu era um pirralho franzino, magrinho e de cabelos muito loiros, morando com a vovó Nair e vovô Barbosa. E toda a penca de tias e tios... entre eles, a tia Afra. 
Ela trabalhava na Prefeitura, era sempre doce e afável. Se ficava triste às vezes, eu não sabia, pois não participava assim tão fortemente do mundo dos adultos. E ela sempre sorria docemente em minha presença. 

Que TV ou videogames que nada... diversão era correr pelas ruas, vestindo só um "calçãozinho"; nadar no ribeirão; pegar manga e laranja no pé; brincar de "mãosualto" e de Tarzan e de fazendinha e de bandeirinha e de pique-esconde com a turma. Grande turma. Meninos e meninas... 

Mas... o progresso chegou: um dia, pegando o onibus (o Tiú) la no Naquinho, prá voltar pra Açucena depois de um fim de semana com pai e mãe, ela estava lá sentada na 1a poltrona. A número 1. Plácida, amena, elegante, com porte de rainha... ela, tia Afra, com uma novidade no colo: uma sensacional "televisinha" de umas 17 polegadas. Preto e branco, claro. Uma "caixa" quase cúbica, mas que me acendeu a curiosidade e imaginação: "Oba, televisão na nossa casa". 

E a nova diversão foi instalada no quarto da tia Afra, que era só dela e a gente não entrava, ambiente respeitoso e respeitado. Antena local, aquela vara metálica de 1 metro com um bombril na ponta, prá que pegasse alguma imagem, cheia de chuviscos e com o "vertical" rodando o tempo todo. Trem doido, sô. Às vezes só  parava com um tapa na caixa da TV, bem do lado... parava e, quando a gente voltava a sentar (na cama da tia), o trem voltava a rodar de novo.

Mas era ótimo, pedir licença pra tia e entrar no quarto dela, prá ver a novidade junto com ela. Novela, sei lá, Repórter Esso... pq o Tarzan na Sessão da Tarde a gente via mesmo na casa dos amigos. Eu via lá no Tiúca. 

Mas, sem deixar de lado as brincadeiras lá da rua, me apaixonei. Coraçãozinho de 10 anos já batia forte pela Martinha, a ajudante loirinha do helicóptero do Capitão Asa. E que so passava ali pelas 3 da tarde. Leite CCPL, bíceps de 15 cm, que nada... queria mesmo era ver a Martinha. 
Vontade louca de ver, tarde de verão e... será que posso entrar no quarto da tia? Não, não posso... vou lá na prefeitura pedir prá ela. Pés descalços, sem camisa, só o tal calçãozinho pra simular alguma roupa, subindo o morro da casa do Sô Duta, subindo as escadas da prefeitura e... na ponta dos pés, esticando o pescoço em cima da "meia porta" do escritório, aberto ao público. "Tia! Tia!". Era tão baixinho e meio que amedrontado o meu sussurro que ela  nem ouvia... Alguém mais próximo que a alertou: "Afra, seu sobrinho tá aqui". "Que é menino?" A voz denotava mais supresa do que aborrecimento. "Tia, posso ligar a televisão?"

Risadaria geral no escritório... se tinha alguém tenso por lá, acabou a tensão e ganhou a tarde... Tia Afra, entre divertida e surpresa, mas com a doçura que era dela solta um "Pode meni..." E eu nem ouvi o "no", pois já dei meia volta e desembestei a correr pela rua...  A Martinha, não posso perder a Martinha... 

Correria morro abaixo, pés descalços não se machucavam (não tem um anjo da guarda pra cuidar de cada criança?) e pareciam treinados e sabedores da posição de cada pedra, cara buraco, cada barranco no meio do caminho. Passei correndo em frente da casa da Sinhana (que tinha um mal cheiro danado, tadinha, pois ela era velhinha e tava sempre doente e sentada numa cadeira de vime) e entrei ofegante pela casa da vó, que tava sempre de porta aberta, pelo quarto da tia e click!! Ufa, ainda peguei a Martinha. Mexi no bombril, rodei o botão do vertical, parei a imagem  e... ninguém olhando, tasquei um beijinho na boquinha da menina, ali na tela. 

A mesma televisinha, no natal, me encheu os olhos com a propaganda de um autorama. Nossa!! E meus carrinhos que eram de pedras e pedaços de paus... já pensou, se eu tiver um trem desses? Criei coragem: "Tia, me dá um autorama de presente de natal?". Respondeu com um sorriso. E eu esqueci da coisa, pois autoramas não faziam mesmo a diferença. 
Perto do Natal ela viajou para Ipatinga de novo e voltou de lá com uma caixinha de presente pra mim. "Trouxe prá você... não achei o autorama."
Nossassinhora!!! Quase morri. Um joguinho "pequeno engenheiro" com pecinhas de madeira colorida pra montar casinhas, prédios, torres... Nossassinhora!! Quem precisa de um autorama?? 
Letras feias, porém firmes e com ternura, escrevi na tampa da caixa: "Presente da tia Afra (melhor tia que tenho)"

E agora no céu, ela sorriu de novo, ao relembrar comigo destes momentos. 
Deus te guarde, tia. 
Agora brinco com minha filhota com um "pequeno engenheiro" igual àquele de 50 anos atrás. E sempre me lembro de você!! 
Quem mora no coração, não morre!!  
Roner Dawson
Campinas, novembro 2013

           


Jadir


O nome dele era Jadir. 
O único Jadir que eu  conhecia até então. Só muito depois é que vim a saber sobre o Jadir do tiJota.   
Não sei ao certo quantos anos tinha. Era mais novo que eu. E eu tinha uns 8 ou 9 anos naquela época, já que fiquei em Açucena dos meus 7 aos 10 anos (1969 a 72). Então creio que o Jadir tivesse uns 6 ou 7 anos. Branquinho, loirinho, franzino... 
Era irmão do Zé. E filho da D. Helena e do Mário. E sobrinho do Geraldo Teterra. Que puxava o lixo da cidade numa carroça. Tinha gente que não gostava que eu chamasse a D. Helena de Dona. Porque confundia com a D. Helena do Totozinho, lá do prédio branco com esteios verdes, onde funcionavam os Correios.  

Mas o Jadir era meu companheiro de muitas brincadeiras. Era da turminha, junto com o Zé, o Tiuca, o Sapinho, o Valtinho e o TiNem. Este era mais velho que a gente, mas fazia parte da turma, das brincadeiras. E, por ser mais velho, mais forte e sempre mais zangado e colérico, era o "macho alfa", o líder do bando. Liderança mais imposta que conquistada. 

Mas enfim, brincávamos todos juntos de mil brincadeiras: mãosualto no morrão; Tarzan no quintal da D. Zilda; e mil outras brincadeiras no imenso quintal da casa do vôBarbosa. Que era um verdeiro pomar, com muitas frutas e o ribeirão Travessão ao fundo. OK, o ribeirão também servia de "rede de esgoto" da cidade, mas... naquela idade, quem se preocupava com aquilo? Nem nós, nem a molecada da imensa turma que ia nadar na "Lapinha", lá no final da cidade, depois da rua São Sebastiao e do campo de futebol. 

O terreiro do vôBarbosa era nosso mundo. E naquele dia, brincávamos de fazendinhas. Cada um era dono de uma fazenda. Com nossa imaginação voando a mil (tal como os Backyardigans), nossas fazendas eram imensas propriedades, cheias de bois, vacas, cavalos, porcos, galinhas e outros animais. Tudo fartamente representado pelas centenas de frutas caídas pelo chão: mangas, laranjas, limões... e até cidra e  jambo. Com dois pedacinhos de pau espetados no lugar dos chifres, laranjas viravam vacas e bois. Limões eram os bezerrinhos. E pedaços de pau num ângulo de 90 graus, eram nossos cavalos. Pedacinhos de paus eram os "homens" e nos representavam no mundo ficticio. Eram nossos avatares. Visitávamos uns aos outros, prá fazer negócios, indo a cavalo de fazenda em fazenda. Sempre com o humano-pauzinho devidamente montado no cavalo.  E tínhamos que seguir as regras rígidas do chefe, o tiNem. Senão... 

Pois bem, lá se foi o pobre Jadir visitar o tiNem, meio temeroso, meio sem vontade, mas... negócios são negócios e ele precisava vender uns bois... chegou lá só com o cavalo trotando, sem o pedacinho de pau que representava ele próprio. Mal chegou na porteira da fazenda do tiNem e já ouviu os gritos: "É fantasma, é?? cadê o homem montado no cavalo? volta, volta, vooooooltaaaaa!!!!". Voltou o Jadir, mais que depressinha, pegou o humano-pauzinho que o representava, montou ele no cavalinho de madeira e retornou prá fazenda do tiNem. Agora sim, agora vai dar. 
Chegou na porteira, o tiNem fazia de conta que não o via. E o Jadir esperou. E esperou... E fez o Jadir: "bi-bi". 
O "bi-bi" ligou a fúria do tiNem: "Quê istooooo!?!?!? Desde quando cavalo tem buzina?!?!?!" 
Ixi, e agora? Pensou rápido o Jadir e soltou novo som: "Paaam, pa-pi-pa-pi-pa-pi..." 
"Quê istoooo!?!?!?! Que barulho é este que teu cavalo ta fazendo?!?!?! Sai daqui!! Não sabe brincar, vai embora!!" 

E lá se foi o Jadir, cabisbaixo, tristonho, ao ver sua tarde de brincadeiras truncada daquela forma. Por um barulho de cavalo. Por um "riiiinnnch" que se esqueceu de fazer, depois de já ter ouvido tantas vezes. 

Jadir protagonizou este e outros episódios hilários ou igualmente divertidos. Viveu entre nós por pouco tempo e nos deixou bem cedo, ainda criança. Ao que parece, tinha Leucemia. Me lembro do meu pai Zé Maria contando que foi lá na casa dele orar por ele. E disse: "Jadir, levanta!!". 
E o Jadir se levantou da cama por um tempo. Mas partiu para o outro plano no dia seguinte. 

Deixando histórias e, certamente, muitos corações tristonhos. Da mãe, do pai, do irmão, dos amigos. 
Brinque em paz, Jadir. Onde estiveres, grite à vontade, o som que quiseres fazer. 
Agora, tu és livre!!!  
Roner Dawson
Campinas, novembro 2013


As 3 Nanás


Açucena-MG. 
Deliciosa cidadezinha onde passei parte da minha infância, final dos anos 60 início dos 70, e onde vivi meus melhores momentos. 
Volta e meia, as imagens daqueles tempos ainda retornam à minha mente, como cenas de um filme (tipo Cine Paradiso). Que um dia, quem sabe, poderá ser filmado. O roteiro vai-se formando... 

Recentemente voltei a MG para acompanhar minha mãe. E, entre os vários lugares que fui com ela, estivemos num velório de uma amiga da família. Que morava em Açucena. No velório, entre cânticos de outrora e rostos conhecidos, muitas imagens da infância pulavam nos meus pensamentos, com frases soltas, palavras esparsas, emoções infinitas. 

A senhora que naquele momento partia, era a dona Naná. E me trouxe à mente "as 3 Nanás" da minha infância. 
Não sei bem como o apelido "Naná" era dado a várias mulheres, de nomes tão diferentes. Mas era bem comum naquela época. E para diferencia-las, costumava-se citar também o nome do marido. Assim, fizeram parte da minha infância a Naná do Múcio, a Naná do Dozinho e a Naná do Nôca. 

Tia Naná do tio Múcio era irmã da minha mãe e uma mulher excepcional. Vim a saber recentemente, em longas conversas com minha mãe, que ela havia sido professora lá em Açucena, ministrando aulas numa "escolinha"  particular que meu avô havia montado especialmente prá ela. Professores são "gente-grande", em qualquer época, em qualquer lugar. Saber deste fato aumentou minha admiração por ela, que mais tarde me acolheu na casa dela pra eu estudar na cidade grande (Cel. Fabriciano). E ainda me acalmou no dia que o homem pisou na lua pela primeira vez, em 1969. Eu, com 7 anos e da roça, fiquei muito impactado com medo do "mundo arrasar" naquele dia. Ela me abraçou e me explicou que o mundo nao ia acabar não; era bobeira do povo. 

Tia Naná do tio Dozinho, era minha tia-avó e morava naquela casa lá no fim da cidade. Me recebia sempre bem, naquele quintalzão enorme, cheio de gansos "selvagens". Eu ia lá pra buscar leite e fubá e farinha de milho, do "munho" (um moinho d'água) que tinha lá no fundo. E andava depressinha naquele quintal sem fim, morrendo de medo dos gansos. E nem queria topar com o Pinguim, um enorme cachorro peludo, preto e branco, que era tão forte que era o único cachorro capaz de bater no Tupã, o cachorro avermelhado do meu avô. E olha que o Tupã era valente pra caramba. Ele era usado para colocar pra dentro do matadouro as vaquinhas que iriam ser sacrificadas pra virar bifes.  
Eu ia lá na tia Naná também pra buscar as revistas de fotonovela do Jacques Douglas, que a minha tia queria emprestadas pra ler. Um dia andei aquilo tudo, pois a casa era no fim da cidade, e quando cheguei lá, tinha esquecido o nome da tal revista. Eita! Tive que voltar pra casa só pra perguntar pra tia como era mesmo o nome daquilo. "Jacques Douglas, veja se lembra agora!!". Uai, aquele nome era difícil. Ainda mais que no caminho tinha uns canos grandes do depósito da prefeitura, bons demais pra gente brincar, pulando em cima. E ainda mais se no caminho eu encontrasse o Tiúca, o Zé ou o Sapim. Era muito papo e brincadeira, prá me fazer esquecer o nome da tal revista. 

Dona Naná do sôNôca era a senhora que naquele momento me trazia tais recordações. Era, para mim, uma das mulheres mais distintas da cidade. Eu só sabia que era esposa do sr. Nôca, lá da venda, e raramente a via. Só em eventos especiais, missas, festas da paróquia, coisas assim. Mas me lembrei que eu frequentava muito o quintalzão da casa dela. Os meninos de lá tinham feito uma pista que simulava as ruas de uma cidade. E a gente ia lá com uns carrinhos de madeira, que podiam ser dirigidos com um cabo de vassoura e um barbante na ponta. Toda a molecada da cidade tinha um carrinho assim. Os que tinham algum dinheiro, mandavam o sr. Zé de Pinho fazer. Os que não tinham, se viravam como podiam. Faziam os próprios carrinhos. Até uma caixinha de madeira das goiabadas São Gonçalo viravam um bom carrinho, se bem que frágil demais. Mas tava todo mundo lá, dirigindo que nem gente grande na cidade grande. Quando algum carrinho trombava nas cerquinhas, tinha que pagar pro dono da pista um dinheiro, que era feito de papel de maço de cigarro. 
A última vez que fui na casa da D. Naná, eu já tava na 5a-série, ja tava no "ginásio"  e ja me sentia parte "dusgrande", a turma de crianças mais velhas da cidade. Fui lá pra ensaiar com a professora Mary, a filha dela, uma poesia do Tomás Antônio Gonzaga: "Meu sonoro passarinho, se sabes do meu tormento...". 
E aquele foi meu último tormento decorando coisas pra apresentar nas festas de escola. Empaquei no dia da coisa, olhando pra "minha Marília bela" e esqueci o texto todo. A professora Mary teve que "soprar" quase tudo pra mim. 

Pensamentos voam. E as 3 Nanás voaram. Foram para o céu. Sempre me lembro delas de novo, ao ver as 3 Marias brilhando entre as estrelas. 


Roner Dawson 
Campinas, agosto 2020




Comentários

  1. Muito emocionante o texto, fiz uma viagem pela minha bela Açucena.

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    1. Perfeito, Champ!!
      Pra isto servem as crônicas, né? Nos trazer de volta os momentos, as pessoas, os lugares.
      Obrigado pela participação.

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  2. Que eu me lembro voce veio pra ficar na casa da tia Nair, e tio Argemiro.Para estudar na escola polivalente.Depois teve uma grave doença a menigite.Ai entao ficou na casa da tia Naná do tio Múcio para fazer o tratamento com dr Daví .Mas enfim sao detalhes Açucena , tambem tenho ótmas lembranças das ferias na fazenda do vovô Nezinho da vovó Dica saudades eterna.

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    1. Isto mesmo!!
      Ainda escreveremos mais sobre aqueles tempos.
      Obrigado pela participação.

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  3. Veja só, eu aqui de Mato Grosso acabei de passar uma tarde em Açucena. É o poder da palavra: nos fazer viver mais vidas do que a nossa. Parabéns.

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    1. bem vinda à nossa aprazível Açucena, Lucimara.
      entre e fique à vontade.. passeie pelas ruas e sente-se ali na pracinha bem cuidada.
      puxe o banquinho e fique para os próximos causos....

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  4. Lindas histórias Roner! Delicia de infância! E foi outro dia mesmo.....

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  5. Vc escreve muito bem e consegue nos fazer imaginar como era.... muito bom!!!

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  6. ...e hoje reli suas crônicas novamente.Me bateu uma saudade tão grande.... que talvez seria melhor nem ter relido! ...😪😪😪😪😪😪

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